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24 de Agosto, 2017

Como as mudanças climáticas vão mudar o mundo dos negócios e o mercado de trabalho

Quando falamos em mudanças climáticas, a maioria das pessoas pensa em consequências ambientais como aumento do nível do mar, temperaturas elevadas e derretimento de geleiras.

Em algumas partes do mundo, como o sul da Flórida ou as montanhas da Suíça, essas mudanças já estão afetando a vida diária. Em Miami, por exemplo, estações de tratamento de esgoto estão sendo reconstruídas em um nível mais alto, os quebra-mares estão sendo elevados e os estacionamentos de carros, planejados com estruturas contra inundação - não só uma resposta às de hoje, mas de olho na previsão do nível do mar no futuro.

Especialistas dizem que esses efeitos podem ser apenas a ponta do iceberg derretendo: as mudanças climáticas estão transformando tudo, das finanças até a saúde.

Como resultado, não são apenas os responsáveis pelo planejamento urbano em áreas de risco que terão de mudar seus projetos para o futuro. De agentes financeiros até fazendeiros, engenheiros civis e médicos, um número cada vez maior de profissionais verão seus mercados mudarem.

Isso significa que pode haver outra consequência da mudança climática que muitas vezes passa despercebida: o que isso significa para a sua carreira.

"Todo mundo vai precisar entender (as mudanças climáticas) da mesma forma que você assumiria que todos no ramo de negócios precisam ter alguma fluência em redes sociais hoje ou que todo mundo seria capaz de usar um computador 20 anos atrás", diz Andrew Winston, autor do livro The Big Pivot: Radically Practical Strategies for a Hotter, Scarcer, and More Open World ("O Grande Pivô: Estratégias Práticas Radicais para um Mundo Livre Mais Aberto, Quente e Com Menos Recursos", em tradução livre).

Transformações em curso

Já que é difícil saber exatamente quão dramáticos serão os efeitos das mudanças climáticas, é difícil saber exatamente quanto elas afetarão diferentes ramos. Mas algumas das transformações já podem ser observadas. Desastres relacionados ao clima como secas e furacões, por exemplo, estão afetando bolsos e seguradoras - com impactos em pessoas e negócios em lados opostos do mundo.

Enquanto isso, as complicadas redes de abastecimento de uma indústria de confecção globalizada indica que uma interferência em um lugar pode causar consequências em outros. Isso foi comprovado recentemente, quando terremotos atingiram o Japão em abril de 2016, causando estragos em fábricas que vendiam partes automotivas para a Toyota e forçando a empresa a suspender a produção.

Até mesmo a indústria da saúde pode ser afetada. Além de afetar a disponibilidade de água limpa e de alimentos, um clima mais quente está aumentando a vulnerabilidade das áreas cujos moradores já estão sob o risco de doenças como malária e dengue.

A recente epidemia de zika pode ter sido exacerbada por causa do clima mais quente. Entre 2030 e 2050, a Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê que as mudanças climáticas causarão 250 mil mortes a mais por ano.

"Uma das coisas mais interessantes que não se fala a respeito, mas que há muito trabalho sendo feito na OMS, é o que está chegando até nós em termos de doenças e como o clima está mudando e espalhando doenças e epidemias mais rápido", diz Michelle DePass, decana da Faculdade Milano de Assuntos Internacionais, Administração e Políticas Urbanas na New School, em Nova York.

"Podemos ouvir a BBC falando sobre ebola e outras coisas e não entender que estamos muito, muito vulneráveis a esse tipo de epidemia aqui nos Estados Unidos também por causa do que está acontecendo com o clima."

Aliás, este ano, o Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial, que é baseado em análises de 750 especialistas, descobriu que um dos cinco maiores riscos enfrentados pelo mundo em 2017 em termos de impacto em potencial são as armas de destruição em massa.

Todos os outros são relacionados ao clima: acontecimentos climáticos extremos, crises de água, desastres naturais de grande escala e fracasso no abrandamento e na adaptação às mudanças climáticas.

Apesar do tamanho do desafio, menos funcionários que o necessário são treinados para incorporar padrões climáticos nos seus planejamentos para o futuro, segundo Daniel Kreeger, diretor-executivo da ONG Association of Climate Change Officers (Associação Empresarial de Mudanças Climáticas, em tradução livre).

Uma das iniciativas da ACCO é organizar treinamentos e programas de credenciamento em habilidades relacionadas ao clima. "Nós não temos as pessoas certas com as habilidades certas nos lugares certos", diz ele.

Um dos exemplos apontados por Kreeger é a engenharia civil. "Nós não esperamos ter inundações monstruosas e então seca por seis meses. Esperamos ter quantidades pequenas e periódicas de chuva. Logo, nossos sistemas não estão equipados para lidar com grandes temporais", afirma.

"Quando esses parâmetros mudarem, você precisará de uma mão de obra para lidar com essas mudanças. Bem, nossos engenheiros civis não foram treinados para lidar com mudanças climáticas durante o treinamento. Nossos planejadores urbanos, nossos administradores de cidades, nossos arquitetos. Ninguém aprendeu essas coisas."

Empregando o clima

Agora, as dez habilidades mais desejadas para conseguir um contrato de emprego, de acordo com uma análise de dados do LinkedIn, têm a ver com tecnologia: pense em computação em nuvem, marketing SEO e arquitetura web.

Mas da mesma forma que a tecnologia transformou a mão de obra de hoje, alguns dizem que as mudanças climáticas podem transformar o amanhã.

Uma indústria que já mostra sinais dessa evolução é a de energia. De acordo com dados do sistema de buscas de emprego Indeed, no primeiro trimestre de 2014 no Reino Unido, as ofertas de empregos no setor de energia renovável - bioenergia, geotérmica, hidroelétrica, solar e eólica - representavam um terço (32,9%) de todas as ofertas de emprego do setor de energia desse período de 2014.

Em 2017, isso aumentou para mais da metade de ofertas de todo o setor de energia, ou 51,5%.

Apesar desses números serem específicos do Reino Unido, o mesmo padrão de inclinação às renováveis tem ocorrido mundialmente, diz Tara Sinclair, uma integrante sênior da Indeed e economista na Universidade George Washington.

Essas mudanças foram o resultado de uma variedade de fatores, incluindo a queda nos preços de petróleo e a competitividade pelo gás natural: durante três anos, as ofertas de emprego de petróleo e carvão no Reino Unido caíram de dois terços (66,5%) do setor de energia para menos da metade (47,7%).

Mas também são consequência de como empregadores e pessoas buscando emprego estão se interessando em diminuir emissões e as mudanças climáticas, diz Sinclair. Depois da queda do preço de petróleo anos atrás, afirma ela, os empregos na indústria de petróleo diminuíram, assim como o interesse das pessoas que procuram empregos nesse ramo.

"Parte disso é que há menos oportunidades e as pessoas reagem ao que elas sabem que é a situação do mercado de trabalho em termos gerais", afirma ela. "Mas também parece existir essa atratividade cada vez maior em empregos na economia verde."

Da mesma maneira que muitas pessoas das indústrias de gás e petróleo conseguiram mudar para a energia verde, diz Sinclair, muitos empregados já deveriam ter habilidades transferíveis a assuntos específicos de mudanças climáticas, como cadeias de demanda e produção.

"De maneira geral, o planejamento de produção diversificado a respeito de fenômenos voláteis de clima será uma parte da habilidade que você deverá ter", diz Sinclair. "Mas eu não vejo porque isso seria muito diferente de fazer planejamento a respeito de outros fenômenos destrutivos, seja ele político ou qualquer outra coisa. Eu não acho que essa seja uma habilidade que não vimos antes."

Fonte: BBC

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